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Diminuindo a solidão do autor

Vemos o livro como um produto sem história e sem esforço, quase que nascido de um ato mágico. A realidade é bem outra.
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Publicado em 17.09.2006 - Edição 415
"Entre a decisão de escrever um livro e o esperado momento de tê-lo em mãos, publicado, existe Com muitos anos de prática como consultor editorial e editor de texto, não me canso de me surpreender com a solidão dos autores. De fato, por mais que as novas tecnologias da comunicação façam com que as pessoas interajam (não por acaso esse é um verbo “em alta”!), o redigir é um ato solitário. Na contramão dessa solidão, como a pressioná-la, transita uma expectativa coletiva e pública sobre o próprio texto produzido. A interlocução com o editor de texto diminui essa solidão pelo compartilhamento de angústias e de soluções que visam o produto final: o livro.

Por sua vez, a tradição anglo-saxã editorial privilegia a interlocução, a troca de idéias, o que, na prática, significa muitas leituras antes de o livro ser editado. Isso, quer do ponto de vista técnico-conceitual, quer do ponto de vista do estilo, da forma, da apresentação do livro como produto gráfico. Não por acaso, observamos — caso ainda raro no Brasil —, em livros europeus e americanos, extensos agradecimentos aos próprios pares, aos agentes literários, aos revisores, etc. No nosso país, ainda são escassas essas práticas profissionais.

O imaginário de nosso povo vê o livro como um produto sem história e sem esforço, quase que nascido de um ato mágico. A realidade é bem outra: há toda uma gênese a envolver uma série de profissionais, a exemplo dos programadores visuais, dos revisores e editores de texto, dos bibliotecários, dos capistas, dos impressores, dos ilustradores e outros. Esquece-se que o livro enquanto produto é resultado de um trabalho em equipe e de profissionais muito especializados.

O fato é que o autor, apesar de tudo, padece de uma dura solidão. “Com quem trocar idéias sobre o meu texto? (Autores escrevem textos, e não livros, como adverte o historiador Roger Chartier.) Como aprimorar a minha obra para que tenha qualidade e, como produto comercializável e atraente, faça bonito nas estantes de livrarias e bibliotecas? Onde buscar uma opinião neutra ou objetiva que, de fato e de forma segura, profissional, possa me orientar frente a horizontes oscilantes e desconhecidos?”

Essas e outras perguntas povoam as explícitas ou latentes angústias dos autores. Encontrar essas respostas cabe ao consultor/editor de texto. Para ele, nos bastidores, como para os autores que estarão nas capas, ter essas respostas é ganhar um imenso valor intangível. É conversar sobre idéias e sentimentos, é estreitar uma cumplicidade que, com a prática, só tende a se aprofundar. Para tal profissional, o editor de texto — trabalhador do Conhecimento —, é fundamental uma qualificação em atributos como ampla cultura geral, sensibilidade, bom gosto estético, feeling para o mercado, conhecimentos de bibliologia e de língua vernácula. Encontrar esse “anjo da guarda” — registra a história de diversas e inúmeras obras — tem sido decisivo para o sucesso de autores e editoras.

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