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Os Avanços da Rio+20

Fátima Brayner, sócia da TGI e do INTG e integrante do Fórum Corporativo de Sustentabilidade Global Compact, evento oficial da Rio+20, fala sobre as principais conquistas da conferência.
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Publicado em 15.07.2012 - Edição 719

          A Rio+20 – Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável terminou envolta em uma grande polêmica. Afinal, qual foi o saldo do encontro que tinha a ambiciosa meta de assegurar o comprometimento político das 188 nações participantes com o desenvolvimento sustentável, com toda a complexidade que envolve esse imenso desafio? Para alguns setores da sociedade civil, como as ONGs, o documento final foi decepcionante pela falta de definições claras, como a responsabilidade dos países desenvolvidos e os prazos para implantação de medidas concretas. Já o Governo brasileiro considerou o resultado satisfatório. Embora reconheça poucos avanços práticos em relação às diretrizes da Eco 92, a presidente Dilma defendeu que a Rio+20 deve ser avaliada pela ampla participação social e pelos ganhos que virão no longo prazo.
          Sócia da TGI e do Instituto da Gestão (INTG), integrantes da Rede Gestão, a consultora Fátima Brayner fez parte da programação oficial da Rio+20, integrando o Fórum Corporativo de Sustentabilidade Global Compact. Desde 2001 a TGI é signatária do Global Compact, entidade criada pela ONU com o objetivo de mobilizar a comunidade empresarial internacional para a promoção de valores fundamentais nas áreas de Direitos Humanos, Trabalho e Meio Ambiente. Nesta entrevista, ela avalia os resultados da conferência.

 

          A Rio+20 teve um balanço realmente decepcionante, como alardearam alguns setores?
          Para quem esperava grandes decisões políticas e o compromisso com metas práticas, principalmente dos países ricos, a Rio+20 não apresentou avanços. Porém, já era possível prever que não haveria muitas conquistas nesse sentido. O fato de Obama e Angela Merkel não terem vindo para o evento foi uma sinalização clara de que as nações desenvolvidas não estavam engajadas nesse compromisso e de que não haveria ajuda financeira dos países ricos para bancar o custo das ações necessárias para viabilizar o desenvolvimento sustentável. Eles ainda estão apagando os incêndios da crise econômica e não estão dispostos a pagar essa conta. Apesar disso, a Rio+20 registrou grandes avanços. Houve muitos pontos positivos, e isso merece ser saudado.

 

          Quais os principais avanços?
          É importante lembrar que essa discussão entrou na pauta mundial pela primeira vez em 1972, na Conferência de Estocolmo, restrita à questão ambiental. Na Eco 92, o discurso avançou e foi materializado pela Agenda 21 e pelos diversos documentos sobre a biodiversidade e o clima, incorporando os aspectos sociais e econômicos, com um plano de ação concreto. Na Rio+20, houve uma abordagem muito mais abrangente, rica, complexa. Vemos os vários atores sociais debatendo, de forma bastante prática, temas como agricultura, segurança alimentar, energia, mudanças climáticas, desenvolvimento social, urbanização, cidades sustentáveis, água e gênero pautados na Agenda 21. Percebe-se claramente que esses temas foram definitivamente incorporados à agenda da sociedade, dos governos, das empresas e instituições, e isso representa um grande avanço. Outro ponto foi a participação dos movimentos sociais, que demonstraram grande amadurecimento em relação à Eco 92. A Cúpula dos Povos mostrou ONGs com uma postura muito consistente, discursos bem fundamentados e comprometidos com a realidade. Esse foi outro ganho muito importante. Colocar a economia no eixo central da discussão permitirá a busca de soluções no contexto da realidade mundial diante das crises e do modelo de desenvolvimento estabelecido.

 

          O Global Compact, fórum oficial da ONU na Rio+20, reuniu mais de 2.700 empresários de todo o mundo. Também houve avanços na participação desse segmento? 
          Sim, avanços muito significativos. Na Eco 92, houve apenas um esboço de participação dos empresários. Na Rio+20, o Global Compact conseguiu reunir lideranças de grandes empresas, como Nestlé, Microsoft, Google, Volkswagen, Coca-Cola, Unilever, entre centenas de outras, na discussão sobre sustentabilidade empresarial. Foram 120 rodadas de reuniões que resultaram em um documento final com uma visão muito consistente sobre a responsabilidade das empresas e o papel da inovação e da colaboração na sustentabilidade empresarial, com recomendações de políticas públicas e compromissos práticos de ação. As grandes organizações estão conscientes de que desempenham um papel vital e estão desenvolvendo esforços para alcançar esse novo modelo de desenvolvimento por meio da sustentabilidade empresarial.

 

          O que as empresas precisam fazer?
          Os cenários apresentados nos documentos da ONU sinalizam que, nos próximos 20 anos, 600 milhões de pessoas vão ingressar no mercado consumidor, quase duas vezes a população dos EUA. Se o atual padrão de produção e consumo for mantido, o planeta simplesmente não se sustenta. Essas grandes empresas sabem que, para conseguirem se manter nesse ambiente, precisam desenvolver formas mais eficientes de produção, evitar desperdícios, gerenciar resíduos, ter sistemas mais eficientes, enfim, atuar em uma outra lógica de produção, na qual sustentabilidade e inovação são parte da equação da sustentabilidade. Na Rio+20, vimos que essas empresas estão conscientes de que precisam entregar aos seus consumidores uma nova proposta de valor a longo prazo, do ponto de vista financeiro, social, ambiental e ético. Isso é importante, pois essas grandes empresas congregam e servem de exemplo para as outras, disseminando suas boas práticas.

 

          Qual seu balanço final da Rio+20?
          As nações ricas, de fato, não se comprometeram com as metas, nem ficou definido quem pagaria essa conta, que é alta. Mas a Rio+20 sem dúvida marca um ponto de partida para uma nova ótica empresarial e simboliza um amadurecimento importante dos vários atores envolvidos na questão do desenvolvimento sustentável. Os vários eventos paralelos foram muito importantes, como o Fórum Humanidades, iniciativa da Fiesp e Firjan, que puxou uma excelente discussão sobre cidades sustentáveis, culminando com a assinatura de um conjunto de metas pelas principais megacidades do mundo. Outra experiência foram os Diálogos para o Desenvolvimento Sustentável, concebidos e realizados pelo Governo brasileiro. Esse conjunto de reuniões com especialistas e políticos de todo o mundo foi estruturado com um modelo inovador e muito bem-sucedido de participação popular. Mais de 1,3 milhão de pessoas em todo o mundo participaram do processo via internet, colaborando para definir os principais temas de discussão e elegendo as propostas mais relevantes para garantir o desenvolvimento. A conferência mobilizou a sociedade e os atores envolvidos no tema desenvolvimento sustentável, com avanços significativos. Isso não deve ser subestimado.


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