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Os Desafios de Dilma Rousseff

O grande peso do presidente Lula na vitória traz desafios importantes, logo de início, para a candidata eleita; o maior deles é fazer o País avançar mais ainda.
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Publicado em 07.11.2010 - Edição 631

          A primeira constatação que se pode fazer da eleição de Dilma Rousseff como a primeira mulher presidente da história do Brasil é a de que, antes da dela, o que houve foi uma grande vitória do presidente Lula, turbinada por uma popularidade recorde na Presidência da República (83% na reta final da campanha).
          Por conta disso, o primeiro grande desafio da candidata eleita será conseguir superar a enorme influência que Lula tenderá a ter sobre ela e seu governo. Não por acaso, vem sendo vazado para a imprensa que o presidente quer a permanência de Henrique Meirelles, Guido Mantega, Nelson Jobim e Fernado Hadad, além de “recomendar” Antonio Palocci para a Casa Civil... Há até quem fale em “terceiro mandato”...
          Além desse desafio, que não é pequeno nem rápido de superar, Dilma enfrentará uma conjuntura externa e interna pior do que a média enfrentada por Lula. Segundo o sociólogo Sérgio Abranches, o mundo e o Brasil estão entrando em um período de estresse econômico, político e social que substitui, ciclicamente, a expansão e a mobilidade que marcaram a última década e beneficiaram muito o governo Lula. “Dificilmente será assim no governo Dilma”, ele prevê. O principal desafio da nova presidente será definir sua equipe econômica e seus planos para enfrentar esse ciclo mais duro, que pode tomar todo o seu mandato.
          Mesmo com o cacife da enorme popularidade do presidente em fim de mandato, a vitória de Dilma pode ser atribuída, de fato, ao que os norte-americanos chamam de feel good factor, o sentimento de bem-estar aliado ao cálculo pragmático da maioria do eleitorado de que, para manter o bom estado das coisas, seria menos arriscado votar numa candidata praticamente desconhecida do que num mais conhecido e experiente. Isso traz para Dilma uma responsabilidade essencial no que diz respeito à governabilidade no seu mandato.
          Por essas e por outras razões, dentre as quais o óbvio fato de ela não ser Lula, além do clima acirrado da campanha, o tempo de boa vontade para com Dilma é bem mais curto do que o inicial dele. Como pontuou o cientista político Renato Lessa, Dilma não contará com o período de graça que Lula teve entre 2003 e o mensalão — vai ter oposição desde antes da posse.
          A favor da candidata eleita, pode-se dizer que ela tem começado bem (discurso da vitória, entrevistas iniciais, escolha da equipe de transição), o que não deixa de ser promissor para quem se vê diante de desafios tão importantes, dentre os quais este sintetizado pelo ex-ministro de Assuntos Estratégicos, Mangabeira Unger, um sujeito de sotaque e ideias estranhamente enrolados, mas que tem pensamentos originais interessantes: “O atributo mais importante do Brasil é sua vitalidade; desmesurada, anárquica, quase cega. Dar braços, asas e olhos a essa vitalidade é a tarefa do governo Dilma”.


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