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Novos Modos de Convivência: Um Desafio do Nosso Tempo

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Publicado em 06.03.2005 - Edição 336

Alguns dos desafios colocados hoje para as organizações apresentam certa semelhança com os que são colocados para a sociedade, de um modo geral. Se, no âmbito da sociedade, busca-se a referência de novas formas de governabilidade, nas organizações tenta-se construir outras práticas de gestão. Ambos os movimentos dizem respeito à construção de novos modos de sociabilidade e convivência.

 

A necessidade dessas construções se impõe mediante a crise de dois dos principais ordenadores do convívio social no Ocidente durante os últimos quatro séculos: a autoridade dita patriarcal e as relações estabelecidas entre os espaços público e privado.

 

A autoridade patriarcal, centrada na obediência e na disciplina, foi o único elemento que se manteve estável na modernidade. Por guiar as relações sociais por séculos a fio, sofreu uma espécie de “naturalização”. Passou a ser identificada não como um modo de autoridade entre outros, construída num certo momento da história da humanidade, mas como o único ordenador social legitimado na prática. A crise desse modo de autoridade teve início no final do século 19 e se aprofundou com os movimentos sociais das décadas de 60 e 70 do século 20.

 

Por outro lado, o desmonte da íntima relação entre os espaços público e privado, ocorrido ao longo do século passado, teve um efeito decisivo nos modos de relacionamento social atuais. A construção do espaço privado guardava, até meados do século passado, uma estreita ligação com o espaço público. As ações privadas eram sustentadas por valores que visavam o bem-estar coletivo e norteavam as ações do indivíduo no espaço público. As duas últimas décadas do século passado, no entanto, foram marcadas pelo declínio do espaço público e a expansão do espaço privado, favorecendo ações individualistas e comprometendo decisivamente a prática do agir em conjunto visando o bem coletivo.

 

Com a falência desses dois ordenadores — o modelo da autoridade e a relação estreita entre os espaços público e privado —, pode-se observar hoje, tanto na sociedade como um todo quanto nas organizações, a presença e a convivência de tendências contraditórias: autoritarismo e violência convivem com relações horizontalizadas e democráticas; individualismo e descompromisso com projetos coletivos convivem com ações solidárias informais ou organizadas; interesses voltados unicamente para a esfera do privado convivem com a preocupação com o mundo e com os outros; o uso do ambiente e dos outros como objetos de satisfação pessoal convive com a preocupação e responsabilidade com os outros e com o ambiente.

 

Assim, a construção de novos modos de convivência, tanto na sociedade como nas organizações, está apoiada na revisão desses parâmetros de ordenação social: a autoridade e o espaço público. Quanto à autoridade, trata-se de defini-la enquanto ordenador de relações estabelecidas entre pessoas autônomas e responsáveis; quanto ao espaço público, trata-se de devolver-lhe a dimensão de um espaço em que pessoas com essas prerrogativas possam agir em conjunto, visando à construção de um projeto coletivo.

 

Nas organizações, isso implica criar e consolidar práticas de gestão que incentivem a ação livre e criativa, com foco na singularidade e no compromisso com o coletivo. Práticas que visem, no espaço organizacional, ao acolhimento da diversidade e à valorização de uma estética e de uma ética novas.

 

A realização desses novos modos de convivência e produção se dá pelo trabalho, entendido aqui como ação criativa e transformadora da realidade. Isso implica um novo posicionamento frente ao trabalho, historicamente definido como fardo, obrigação, sentença condenatória ou direito. Entender o trabalho como ação criativa e transformadora é afirmar que ele é uma das atividades humanas em que o homem se torna singular, cria laços sociais, assume compromissos com os outros e com o mundo e mantém vivo o intereida. 


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