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Os Bastidores do Texto

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Publicado em 10.10.2004 - Edição 315

O “espetáculo” de um texto, sobretudo daqueles mais extensos — um livro, por exemplo —, começa muito antes de o leitor agraciá-lo com a sua atenção. No princípio, é o verbo — a palavra solitária do autor ou dos autores, caso seja uma redação coletiva. Nesse instante, são raros, raríssimos, os textos dos quais se pode dizer: estão prontos. A imagem do “espetáculo” ainda não está nítida, falta-lhe foco, faltam-lhe ajustes. Em sua solidão, o redator faz de si mesmo um outro, que se lê, que revisa, que edita. Um outro que quer chegar ao fim. Um grande silêncio ainda cerca o seu trabalho. O que fazer?

 

Em busca de interlocução, e muitas vezes até sem buscá-la, o redator conta com dois profissionais discretos, mas essenciais ao brilho do seu “espetáculo”. O primeiro deles é o revisor, cujos conhecimentos lingüísticos, estilísticos, gramaticais e de comunicação contribuirão para os primeiros e necessários ajustes. Ah! Que bom ter encontrado esse companheiro de jornada! Com sua mão amiga, o texto ficou de acordo com o que a sociedade exige de qualidade. Com sua interlocução, o autor começou a ver mais sobre a sua própria criação, ganhou um leitor privilegiado. Mas nem tudo são flores — muitas vezes há confrontos e conflitos. Ótimo!, ambos, se não sabem, aprendem a negociar, e o importante é o resultado — o “espetáculo”. A conversa entre ambos os leva a muitos caminhos, a confissões, a cumplicidades, às vezes até à amizade...

 

O mesmo ocorre com o outro profissional — o editorador, o preparador de texto — de cujo trabalho poucos se dão conta, a não ser, claro, os editores e os próprios autores. É ele que, sendo quase uma alma-gêmea do revisor, vai interferir ainda mais no texto, preparando-o para a “vida pública”, para o “mercado”. Seu trabalho de bastidor é de elevada especialização. Para bem desenvolvê-lo, é preciso um sentido editorial aguçado e, naturalmente, um estofo cultural movido a experiência, saber e conhecimento técnico. Sua formação é sobretudo empírica, embora absorva muito da própria seara do revisor. É sob sua responsabilidade que os originais ganham uma nova forma: títulos mais adequados, capítulos reescritos, índices valiosos, supressões, acréscimos; enfim, uma série de peças, encaixes e ajustes que darão ao texto original a futura cidadania de texto de livro (digo assim porque o livro como objeto industrial depende ainda de muitos outros profissionais).

 

Em nossa sociedade, ainda tão periférica na “Galáxia de Gutenberg” e com sua proverbial negligência à cultura escrita, esses dois profissionais do texto, além da “invisibilidade” que lhes deve ser peculiar, não gozam ainda de uma reconhecida cidadania profissional, salvo as exceções de sempre. A “invisibilidade” vira ausência, perda de reconhecimento social. “Quem são? Existem de verdade? Serão mesmo necessários? Não sabia que existia esse tipo de trabalho!” Etc. Etc. São frases reveladoras de uma sociedade intelectual e alfabeticamente pobre. Eis por que são raros, por outro lado, os casos de autores brasileiros que, de modo cortês, agradecem o vivo empenho de revisores e preparadores de texto para que sua obra tenha sucesso e qualidade (Ver o recente bom exemplo de Élio Gaspari, em sua obra sobre a Ditadura Militar). E, alimentando tal costume ainda existe o mito — nunca explicitado (por vergonha? Ignorância? Baixa auto-estima?) — que sugere que um livro nasce pronto da cabeça do seu autor. Nem na escola primária nem na universidade se rasga tal fantasia, não se diz a verdade sobre o trabalho intelectual árduo de bem se publicar um texto. É coisa “invisível”, secreta e esotérica...

 

Na verdade, já é hora de, com profissionalismo, se levar à cena “espetáculos” de qualidade. O leitor merece respeito. “Arrumadinho” deve ficar pra mesa de bar! É preciso nos inspirarmos na tradição anglo-saxã e criar a consciência de que “superleitores” por trás das “cortinas” são essenciais à beleza da arte de se publicar bons textos. 


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