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Jargão: o inferno são os outros?

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Publicado em 17.06.2001 - Edição 143
Quem nunca passou pelo vexame de ignorar uma certa palavra? Quem nunca ouviu uma palestra em que aqui e ali desponta, como uma flor exótica, um termo desconhecido? Pois é, nem sempre a linguagem serve como instrumento de comunicação. Serve como via de exclusão, de domínio e, em sentido inverso, como fator de coesão social. Grupos profissionais têm geralmente seu próprio vocabulário técnico, suas expressões tradicionais e seus neologismos. E isso é velho como o mundo, além de inerente à dinâmica da linguagem.

O problema está no uso abusivo do jargão. Com isso se cria um "cordão sanitário", relegando os outros a um inferno de silêncio e de desprezo. Insinua-se segredo e superioridade, gerando barreiras muitas vezes intransponíveis. Os outros são satanizados e como que privados de fala e comunicação. Com isso, as diferenças não são respeitadas e os limites impostos unilateralmente. O uso do "jargonês" pode indicar má-fé e vontade de domínio, sem falar que vale zero no quesito Comunicação.

Os que abusam de um jargão excessivo não sabem, a rigor, ser claros, simples e diretos. Confundem simplicidade com simplificação: temem, voluntária ou involuntariamente, parecer primários e simplistas. Pecam pela incapacidade de saber traduzir conceitos e sentidos. Por outro lado, sabem que ostentam, vaidosamente, o poder da obscuridade. Não querem ou não sabem compartilhar e, muitas vezes, terminam se enganando a si mesmos, enrolados na própria mistificação lingüística a que se acostumaram.

Como sugerido na conhecida frase do filósofo Jean-Paul Sartre, o usuário abusivo do jargão acha que o inferno são os outros como se os outros não lhe dissessem respeito e a comunicação não fosse algo essencialmente dialógico. Do advogado ao médico, do informático ao psicanalista, do sociólogo ao executivo, todos, se excessivamente centrados nos seus discursos de especialistas, lembrarão o mito da Torre de Babel. O inferno dessa torre, onde as línguas se confundem e ninguém se entende, é, no fundo, a solidão, esse castigo terrível com que sempre se puniu os maiores criminosos, tornando-os incomunicáveis.

Que o jargão se circunscreva a um uso inevitável e sensato ou circule apenas entre os próprios pares. Pois é irritante e inútil sair por aí ouvindo e lendo palavras deslocadas de seus contextos, como feras ameaçadoras que tivessem escapado de cavernas infernais. Assombrações que não têm o direito de fazer medo a ninguém.

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