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Saber "Onde o Galo Canta" na Web

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Publicado em 08.02.2004 - Edição 281

"Ouvir o galo cantar mas não se saber onde" não é apenas uma imagem e uma metáfora de um mundo rural para expressar o que se sabe com inexatidão. Antes, parece ser uma típica característica de uma forma social de se comunicar, hoje ampliada pela comunicação eletrônica e por sua indissociada velocidade. Como se fosse uma ampliação da franja de um turbilhão de informações mal digeridas e apenas experimentadas por meio de um clique. Não obstante suas inúmeras vantagens, um "clique" permanece um "clique" da mesma forma que "virar uma página", em princípio, não é mais que um gesto. A boa informação, logo se vê, não está onde mágica e facilmente parecemos encontrá-la.

 

Saber "onde o galo canta" — tanto na "galáxia de Gutemberg" quanto na Web — exige um pouco mais de esforço e seriedade. Com o feitiço do novo, que ofusca e entorpece, a Web não só presta inúmeros serviços, como, por vezes, deforma o foco da pesquisa e da busca pela informação. Acessá-la pura e simplesmente, como muitos fazem, não é uma legitimação nem uma prova de que o seu conteúdo é correto. Exatamente como sempre ocorreu com os livros. Encontrar alguma coisa nesse estado de orientação é um pouco como imaginar alguém no oceano ancorado à ignorância do que é o próprio oceano...

 

Se "papel e tinta agüentam tudo", não custa ima-ginar que a Web, com tantos recursos e facilidades, agüenta muito mais... Por isso, "saber onde o galo canta" pode se tornar ainda mais difícil, isso sem embargo da beleza e da altura do seu canto. Não basta, portanto, a busca em si mesma, tão fácil, tão "clíquica", como se um conhecimento à la carte ou fast food garantisse algo mais do que uma "franja", uma "superfície" onde prazerosamente se pode surfar. A enciclopédia instantânea da Web requer cuidados e confrontações ou, pelo menos (é disso que se trata aqui), bom senso e consciência.

 

No campo das letras, por exemplo, ou da literatura em sentido geral, é freqüente o embaralhamento de textos e de citações com equivocadas assinaturas. Autores clássicos "escrevem" o que jamais sonharam nem o que suas obras registram. O "lixo literário" digital é vizinho das memoráveis palavras de poetas de peso. Mas todos, sem peso, parecem flutuar num aquário improvável onde terminam pescados, para o bem ou para o mal, pelas redes velozes de impacientes internautas.

 

Nada contra, naturalmente, essa abundância de "horizontalidade" e de lúdica democracia. Mas é preciso estarmos alerta, prevenidos, para que "gatos" não nos venham por "lebres". Se a telinha reluz, nem sempre é "ouro"! Ela também reflete metais menos nobres, cujo brilho só faz confundir a ignorância de todos.


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