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Revisão em tempos digitais

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Publicado em 25.11.2001 - Edição 166
Já não é novidade que a Galáxia de Gutemberg interage cada vez mais com outras galáxias e constelações. No papel, nas telas ou no ciberespaço, a palavra escrita continua em processo de acomodação a novos e dinâmicos contextos. A agilidade das comunicações impõe à escrita a busca pelo tempo real da oralidade. Atributos do oral estão cada vez mais presentes nos novos discursos eletrônicos e digitais, concorrendo para a sensação de inclusão social e de pertencimento das massas. Mas, longe de ter um caráter único, o texto da Web é sabidamente pluriforme, variando de banners a hipertextos os mais diversos. A própria Web, como observa Pierre Lévy, é um imenso e único hipertexto.

Num contexto assim, não só dentro como fora do ciberespaço, a Revisão continua fundamental. É com ela que se pode diminuir os perigos da pressa e da velocidade. Com ela pode-se evitar o terrível contraste entre um belo ambiente gráfico e uma linguagem escrita incorreta e obscura, para não falar dos aspectos estéticos. A escrita não deve e não pode escorar-se apenas no ambiente visual, mas interagir com este de modo harmonioso. Se, por um lado, a tecnologia uniu ainda mais os aspectos gráficos e textuais; por outro, não se deve comprometer, em nome da oralidade ou de sua interface com a palavra escrita, a própria comunicação.

Quando se fala em Revisão, geralmente ocorre a imagem de uma espécie de rede em que se pescam erros de linguagem como peixes malignos. Mas a palavra erro não será a mais adequada para o caso, quer por sua carga pejorativa, quer por não esgotar os objetivos do complexo trabalho revisor. Trata-se de uma simplificação. Esquece-se, com freqüência, que uma das missões da Revisão é estabelecer um padrão, dispondo o texto de modo uniforme, de acordo com determinado contexto. Não se trata de uma caça a presumíveis "erros", mas de uma "formatação" geral, voltada para padrões predefinidos (ponto em que o trabalho se avizinha da Editoração). Além disso, a Revisão é (ou deveria ser) uma espécie de diálogo privilegiado com o redator, diminuindo a sua severa solidão.

Outro aspecto a considerar é a "invisibilidade" da Revisão. Há trabalhos publicados (livros, manuais, catálogos, revistas, etc.) de excelente qualidade e que não trazem explicitamente, em seus expedientes e fichas de créditos, a rubrica Revisão. Mas, então, como saíram sem falhas (isto é, quando saíram assim!)? Como obedeceram a um padrão estético? Ninguém revisou? Saiu "de primeira"? Claro que não. Houve, sim, uma Revisão, purificando o texto (e seu ambiente) de falhas e incorreções e padronizando-os como conveniente. Ainda quando diluída em outras rubricas, a Revisão está presente e foi silenciosamente indispensável.

Em nossos tempos digitais, o trabalho dos revisores ganhou, no mínimo, dois aliados: os sempre lembrados programas corretores e o correio eletrônico, que contribui para que o serviço seja feito à distância e de forma terceirizada. A Internet vem tornando assim a Revisão mais acessível e popular. Embora os revisores eletrônicos ajudem para textos mais curtos e simples, não são suficientes para trabalhos mais complexos, pois não contemplam os múltiplos detalhes que um texto pode exigir. O lado intelectual e estético da comunicação não é "verificado" pelos programas. Com isso, a Revisão, tão milenar quanto a própria escrita, garante seu lugar na busca da Qualidade que a nova Sociedade do Conhecimento já exige de todos nós.

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