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Burocracia e criatividade: duelo ou dueto?

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Publicado em 10.10.1999 - Edição 56
Normas, carimbos, tramitações, protocolos e seus irmãos, gêmeos ou não, constituem, como todos sabem, a numerosa e infernal família burocrática. Não só o serviço público, mas organizações privadas e não-governamentais se deixam, com freqüência, fascinar pelo emaranhado de papéis, documentos, rotinas e atitudes que, criados para disciplinar, terminam sendo provedores do caos e da perda de um tempo valioso. Que remédio ou antídoto para minimizar esse mal aparentemente indispensável?

De olho no século 21 e no advento da era pós-industrial, o sociólogo e consultor italiano Domenico De Masi responde com uma só palavra: criatividade. Como profeta é quem vê o óbvio, (nas palavras de Nelson Rodrigues), De Masi prevê que ética e estética caminharão juntas no próximo século, fazendo desmoronar o bolorento edifício da burocracia (pelo menos, tal como ele nos é conhecido).

Segundo o sociólogo, as novas tecnologias vêm permitindo que o homem desfrute (ou que possa desfrutar) de ócio, de tempo livre, justamente o tempo em que as boas idéias acontecem. Porque as idéias criativas não têm lugar nem hora para ocorrerem. Eis uma das faces do duelo que a criatividade trava com a burocracia bem comportada. É preciso que, desde já, nos eduquemos para o tempo livre e que, conseqüentemente, o ócio criador seja estimulado. Eis um paradoxo a ser equacionado pelas organizações: perder tempo para ganhar tempo, uma vez que, através da criatividade, geram-se idéias, projetos inovadores, conhecimento.

Como que para provar sua tese, De Masi e sua equipe lançaram o livro A Emoção e a Regra: os Grupos Criativos na Europa de 1850 a 1950, no qual analisam o sucesso de equipes e organizações famosas, a exemplo do Instituto Pasteur, da Escola de Biologia de Cambridge, da Bauhaus, do Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt. Em todos, como sintetiza o título da obra, a criatividade e a disciplina, ao contrário de travarem um duelo mortal, se aliaram institucional e espontaneamente. Além de interdisciplinaridade, houve complementaridade, sem falar no papel-chave de um líder fundador na condução da equipe.

No Recife, houve uma experiência semelhante, com a criação, há exatos cinqüenta anos, do Instituto Joaquim Nabuco. A figura de líder criativo de Gilberto Freyre, reunindo em si mesmo "a fantasia e a realização", como diria De Masi, formou um grupo inovador e realizador de pesquisas pioneiras. Foi um triunfo da aventura sobre a rotina.

Mas é preciso que todos estejam de olho no processo degenerativo a que conduz o excesso de burocracia. É preciso o sal da criatividade para se mover num mundo que muda velozmente. A cada dia, lembra o sociólogo e consultor italiano, a sociedade já vem premiando os criativos: os cientistas, os artistas, os escritores. São estes que (mais felizes, como escreveu Bertrand Russell) fazem avançar o processo. Porque "o burocrata vê os limites, ao passo que o criativo vê as oportunidades". No século 21, na era pós-industrial, ou os burocratas compõem um dueto ou o duelo lhes será fatal.

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