Coluna

|Variedades - Artigos Principais - Paulo Gustavo

Coluna

|Variedades - Artigos Principais

Veja por autor

Para Compreender a Revisão

whatsapp linkedin
Publicado em 31.08.2003 - Edição 258

O trabalho de revisão de texto, ao contrário do que se poderia imaginar — por diversas razões e por estranho que possa parecer —, não é freqüentemente compreendido em sua complexa abrangência operacional e conceitual. É contraditório, mas verdadeiro, que, mesmo os mais eminentes usuários da Comunicação Escrita, com as exceções de sempre, desconheçam ou ignorem o complexo processo de que se reveste uma revisão digna de nome. É claro que a natureza “invisível” do trabalho e sua própria especificidade (aliás, como qualquer outra) induzem a esse tipo de comportamento, cujos sinais são muito sintomáticos para serem negligenciados. É preciso, no mínimo, esclarecer alguns pontos.

 

O revisor não é exatamente um especialista em gramática. É claro que o conhecimento gramatical ajuda, é necessário, mas não suficiente. Por quê? Porque a Revisão exige outras habilidades mais funcionais e pragmáticas que vão além do que se pensa dela e dos corretores de texto eletrônicos. Em sua caixa de ferramentas, é preciso aptidões e virtudes como: senso crítico, capacidade de análise e conferência, ampla visão do funcionamento da língua, cultura diversificada, concentração, sentido de conveniência, conhecimentos de Lingüística e... naturalmente um olhar aguçado e a capacidade de usar tais instrumentos em conjunto ou pontualmente, conforme o contexto gráfico-textual em que se mova. Mais que apontar ou “corrigir” pretensos “erros”, é de trabalhar por adequação e organização de sentidos o grande desafio do profissional dedicado à Revisão.

 

Mas aos próprios revisores parece caber uma parcela de responsabilidade pelo desconhecimento do seu trabalho. É que eles se esquecem de que são interlocutores e, portanto, com direito à voz ativa e com o dever de dialogar não apenas com os textos, passivamente, mas, ativamente, com os produtores de texto (redatores em geral, publicitários, escritores, pesquisadores, etc.). Por outro lado, e a propósito, a prática de trabalhar com a linguagem escrita não deveria (por isso mesmo!) levar os revisores a se esquecerem do estudo da linguagem oral, cuja complexidade, como afirmam inúmeros lingüistas, é de igual ou maior importância que a escrita.

 

No Brasil, por motivos que aqui refogem à nossa reflexão, mas todos de ordem cultural e socioeconômica, a Revisão quase sempre ainda é vista como coisa menor ou subsidiária, caudatária de uma cultura letrada auto-suficiente e cheia de preconceitos. A arrogância e o autoritarismo reinantes na sociedade transpõem-se para o domínio do texto: o erro, a falha, a inadequação, a inconsistência de sentido podem, muitas vezes, ser vistos sob o prisma de uma estratificação social que privilegia a ignorância e até... se orgulha dela!!! Felizmente, os tempos começam a mudar e as exigências de Qualidade anunciam que, sem Revisão, resultados de excelência ficam ameaçados de não acontecerem. Imagem e boa comunicação ficam comprometidas.

 

Mais que um serviço de bastidores, a Revisão é um dever e um direito lingüístico. Em sentido lato, é um trabalho de Comunicação como outro qualquer. A “invisibilidade” da prática não deveria ofuscar a “visibilidade” do conceito. Por isso, é necessário, pelo menos ainda entre nós, profissionalizar ainda mais essa área “desconhecida”, lembrada apenas nas resenhas da imprensa e em comentários quase sempre negativos, quando mostra sua face vulnerável e falível, ou nos momentos amargos de evitáveis prejuízos.


Rede Gestão