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Vocabulário e Ascensão Profissional

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Publicado em 06.07.2003 - Edição 250

Há dois anos, no rastro das notícias sobre o lançamento do Dicionário Houaiss, chamou-nos a atenção, em matéria da revista Veja, o que revelou uma pesquisa promovida pela Harvard Business School, nos Estados Unidos. Segundo o estudo, para um empregado americano subir um nível hierárquico é obrigado a enriquecer em 10% o seu vocabulário. A ser verdade essa informação (ou qualquer que seja a sua verdade), será saudável nos apropriarmos dela, divulgando-a como um alerta amigo a executivos, gestores e profissionais das nossas empresas e instituições. Até porque, como se sabe, o quesito Comunicação Verbal, escrita ou não, costuma ser pouco e não eficazmente tratado por grande parte das organizações, o que tem camuflado prejuízos de ordem intangível, com graves rebatimentos na imagem social e na comunicação interna das empresas.

 

Ao contrário do que pode soar para ouvidos menos avisados, um “enriquecimento de vocabulário” não significa necessariamente o uso de “palavras difíceis” ou “acadêmicas”. Já é hora de nós, brasileiros do século 21, nos desfazermos de práticas arcaicas e pedantes que transformam as palavras em penduricalhos pomposos e “barrocos”, para não dizer “ornamentais”. Quem vive exibindo palavras rebuscadas e pouco usuais esquece que está sendo grosseiro com seu interlocutor, excluindo-o do processo interativo que caracteriza a verdadeira comunicação. As palavras precisam não só se adequar ao contexto como às próprias pessoas que as incorporam ao seu vocabulário. É preciso autenticidade e fluência, uma espécie de “adesão espiritual” ao sentido, sem o que haverá artificialismo, arremedo, caricatura.

 

Se o mundo corporativo e globalizado exige cada vez mais aprendizado intelectual, envolvendo participações e apresentações em cursos, congressos e seminários, além de publicações de toda ordem, não é difícil imaginar que o papel desempenhado pela língua tende a crescer e a se valorizar. “Vocabulário”, no mínimo, passa a ser uma metáfora para Conhecimento, e a incorporação orgânica de novas palavras, uma expansão e um domínio de tal Conhecimento.

 

No caso brasileiro, sem qualquer viés ufanista, nunca é demais realçar a importância de nossa língua. Em 1986, Antônio Houaiss, em palestra no Seminário de Tropicologia, da Fundação Joaquim Nabuco, destacou o português como uma das dez maiores línguas de cultura do mundo, ao lado do chinês, inglês, espanhol, russo, hindu, árabe, francês, indonésio e japonês, embora ressalvando a importância cultural do alemão e do italiano. O dicionarista lembrou como o português brasileiro foi enriquecido por nossa mestiçagem tropical: “Graças à presença dos trópicos, dobrou o acervo de palavras concretas na língua portuguesa para designar a cópia riquíssima de flora, de fauna, de culinária, de bens materiais...” (Anais do Seminário de Tropicologia. Recife: Massangana, 1993).

 

Naquele Seminário, Houaiss ainda afirmou que, na transição do século 19 para o 20, o português, como outras línguas de cultura, teve o seu vocabulário ampliado em 80%. E não se esqueceu o filólogo de assinalar que os especialismos técnicos constituem um dos maiores desafios dos nossos tempos para a intercomunicação humana, pois poderá criar mandarinatos em diversas áreas de saber ou, quem sabe, novos e ainda desconhecidos procedimentos lingüísticos.

 

Por último, vale lembrar que o recente interesse pelo português no mundo corporativo é mais um sinal de que o bom domínio de nossa língua deve e pode ser um diferencial de competitividade. Sucesso e carreira.


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