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Texto: um "ponto cego" de nosso tempo?

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Publicado em 25.05.2003 - Edição 244

No rastro dos recentes avanços tecnológicos, aí incluída, e com destaque, a própria Web, houve, não sem razões, um sentimento generalizado de que estávamos chegando ao fim da escrita e do uso do papel. O fascínio da imagem — como no cinema e na televisão — e o advento de comandos eletrônicos de voz deixariam para trás não só a necessidade de impressão, mas igualmente, de par com esta, a própria escrita, o primado do texto.

 

Apesar de não ter se configurado uma completa inversão e os prognósticos terem se diluído na própria realidade, não se pode deixar de reconhecer que o texto passou para uma zona de sombra, secundária, no imaginário coletivo. Com o aprimoramento das interfaces gráficas nos aplicativos dos computadores pessoais, facilitando a vida do usuário comum, somado a uma tradicional visão da Comunicação Escrita, o texto foi aparentemente relegado a um segundo plano. Passou a ser um “coadjuvante” no palco em que contracenam atores de “maior” brilho, como a programação visual e os recursos informáticos que garantem a fetichização da imagem. Para usar a imagem de Steven Johnson em seu excelente livro Cultura da Interface: “um figurante obscuro num grande épico de Hollywood”.

 

Na realidade prática, descontada a percepção imaginária, o texto continua mais presente do que nunca. Sua importância e sua complexidade não desapareceram nem foram devoradas pelos novos meios. “Ponto cego”, continua a guiar o pensamento e as estruturas lógicas que presidem a Comunicação Escrita, além de já se encontrar “amplamente presente na interface gráfica atual”, como igualmente observa Johnson. Em todo caso, observa este autor, é preciso que “o mundo high tech se recupere de sua logofobia”, o que já parece em curso, e anuncie uma “mudança de paradigma textual tão profunda quanto a que foi inaugurada com o surgimento do processador de textos”.

 

Nunca é demais lembrar que o uso da língua, por ser comum e como que transparente para seus usuários, banaliza o texto, dissociando-o de sua complexidade técnica, contextual e estilística. Tem-se, com isso, a falsa impressão de que, para sua feitura, há menos trabalho e menos criatividade. Menos custo. Mas isso é um ônus a ser negociado e compreendido pelo próprio mercado e seus produtores de texto. Redação e revisão devem e precisam ser reconhecidas, desde que ofereçam “produtos” de qualidade. Falo de revisão não só porque é indispensável à excelência da Comunicação Escrita, mas porque é, de fato, parte integrante do próprio processo de redigir. No mais, há uma nova revisão em curso, não só movida pelo zelo da linguagem e dos aspectos tipográficos, mas pela busca de um sentido clarificador que garanta as qualidades fundamentais de um bom texto, seja este de um livro, de um site, de um anúncio ou de uma simples embalagem ou placa de sinalização.

 

 Em suma, é preciso que os profissionais do texto (redatores, revisores, jornalistas, preparadores de originais, webwriters, etc.) estejam atentos aos novos arranjos do mercado e da tecnologia, influindo, cada qual à sua maneira, para que se consolide (ou se resgate) a merecida importância de um bom texto. Afinal de contas, o futuro, se de fato nos reserva um novo paradigma textual (como já anunciam vários especialistas), poderá comprovar que nos antecipamos em contar com uma legítima e desejada valorização de nosso trabalho.


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