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A Janela Transparente das Palavras

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Publicado em 19.01.2003 - Edição 226

O filósofo francês Henri Bergson escreveu certa vez que toda a arte de um escritor estava em fazer com que o leitor esquecesse... das palavras. Não seria esse o caso de inúmeros gêneros de texto, sobretudo os midiáticos e os institucionais? Com efeito, no texto jornalístico, em parte dos textos publicitários, nos relatórios de pesquisa e na própria Web, as palavras são como que transparentes... ou deveriam ser.

 

A comunicação direta, fluente, extremamente persuasiva, é o caminho que todos deveriam perseguir. O que se deseja? Capturar o leitor, sua atenção. O leitor é um ser à deriva: passeia os olhos sobre revistas, jornais e relatórios, navega na Web, salta de um cartaz para um outdoor e deste para panfletos, banners, etc. O leitor, amigos, é um ser cansado, tal o bombardeio de informações escritas e gráficas que cai sob os seus olhos. É preciso refrescá-lo com mensagens transparentes, com as quais não canse, inutilmente e com perda de tempo, os seus preciosos neurônios.

 

Para os redatores em geral, cremos que vale a inspiração bergsoniana. O leitor quer esquecer as palavras. Mas isso só é possível com uma redação corrente e clara, na qual não se tropece em dezenas de vírgulas e intercalações, em frases obscuras, em termos de jargão, sentenças na ordem indireta, etc. O leitor comum não quer outra coisa a não ser olhar pela janela transparente das palavras. Vários tipos de texto não pedem outra mágica a não ser essa.

 

Se você redige profissionalmente, pense sempre "no outro lado do balcão", observe se a janela que você abriu é transparente para uma comunicação eficaz. Seu "cliente" e destinatário, "do outro lado", exige exatidão nas informações e isso passa pela forma do seu texto. Os especialistas aconselham a ler em voz alta, leitura compartilhada e revisão criteriosa do texto preliminar, se houver, claro, condições para tanto. Mais do que regras de gramática — insistimos neste ponto —, é preciso ter (bom) senso (e treino) de comunicação, porque, afinal, um texto também é um lugar de encontro, um ponto da grande rede de comunicação que nos une a todos.

 

Assim, para capturar seu leitor, cuja atenção — é bom não esquecer — está sendo disputada (cada vez mais) por inúmeros outros textos e ocorrências midiáticas, experimente o que poderíamos chamar de "ferramentas da transparência": fluência, clareza, objetividade, etc. Obscuridades, ambigüidades, perturbações do sentido, liberdades do subjetivismo ficam bem em arte e em literatura. Em textos institucionais, há, por vezes, muita opacidade involuntária e inercial, mas, para evitá-la, é básico o cuidado com a linguagem, um treinamento e uma autodisciplina que só o tempo poderá amadurecer. Para um texto institucional, cabe o que Bergson (que aliás se referia à Literatura quando fez sua observação) propõe: promover o "esquecimento" e, portanto, a "invisibilidade" e a "transparência" das palavras. Eis um bom termômetro para a sedução de inúmeros gêneros de textos profissionais.


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