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Textos digitais: estamos prontos para eles?

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Publicado em 31.08.2002 - Edição 206

Tanto quanto McLuhan, o historiador francês Roger Chartier é dos que acreditam — e penso que com razão — que o suporte e o meio dos textos conferem a estes um sentido peculiar. Assim, o texto impresso e o texto digital têm pesos e qualidades diferentes, não obstante coincidam no essencial. Num certo sentido, "o meio é a mensagem". O livro digital ou e-book, por exemplo, seria ainda um livro tal como hoje o conhecemos? Ou um novo artefato para o qual ainda não temos o termo adequado, visto que a atual designação é caudatária da tradição? Como nos lembrou o próprio McLuhan, o próprio automóvel já teve a sua fase — digamos, lingüística — de ser "uma carruagem sem cavalo"!

 

Livros e automóveis à parte, a linguagem escrita parece agora abrir-se para um novo paradigma, de cujo completo sentido ainda não nos damos conta. Queiram ou não os apegados à tradição, os nossos processadores de texto e a Internet apontam para novos sentidos e novas abordagens. Os hipertextos contaminam nossa maneira de ler e de enfrentar os desafios do texto. A velocidade, definitivamente, chegou à palavra escrita.

 

Ora, a palavra escrita, gutemberguiana e impressa, sempre foi um prestigiado ícone de nossa cultura e é provável que continue a sê-lo. O que não é provável é que fique alheia a uma espécie de rearranjo antropológico. À palavra escrita sempre se associou, preferencialmente, valores que falam de permanência, autoridade e qualidades afins. Valores para os quais o papel, com a sua consistência material, sempre emprestou o melhor de si. "Consistência"? Consta que o papel, logo que adotado para textos escritos, mereceu a honesta desconfiança de que era algo demasiadamente... frágil! Haja séculos de ironia! mas séculos de bons serviços prestados à humanidade, com a grande vantagem de não dar pane...

 

Se é verdade que, como disse acima, a velocidade chegou à palavra escrita, há que se estar preparado para os benefícios e, por que não?, para os perigos dessa velocidade. É preciso imaginar, cada dia mais, o potencial dos benefícios e, por outro lado, a danação dos perigos que podem nos pegar no contrapé. Não se trata de minimizar o valor que se agrega, mas de criarmos salvaguardas a possíveis desastres de comunicação e de aprendermos a conviver com os embaraços dos novos meios. Quem nunca respondeu um e-mail com a mesma emoção e imediatismo de quem responde a uma provocação por telefone? Quem nunca enviou, por engano, um arquivo errado? Quem nunca deletou algo para, em seguida, se arrepender do que fez? Quem nunca leu uma chamada errada ou enganosa no jornalismo on-line? Os exemplos poderiam ser inumeráveis. Naturalmente, grande parte do que ocorre hoje deixará de ocorrer amanhã, quer pelo nosso aprendizado, quer pelo próprio avanço tecnológico.

 

Quanto aos textos impressos em papel, alguns estudiosos estão chegando à conclusão de que continuarão valendo para conteúdos mais importantes e aos quais se queira imprimir durabilidade. Os textos tipicamente digitais, por sua vez, continuariam a ter a descartabilidade que atualmente já se testemunha. O caráter inconsistente e veloz do digital desautorizaria outros enquadramentos. "Inconsistente"? Será que não estaremos repetindo a mesma desconfiança que cercou o papel em tempos já remotos? Só o tempo dirá!


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