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Livros: Quando a Qualidade Vem da Equipe

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Publicado em 28.07.2002 - Edição 201

Práticos, portáteis e poderosos na sua magia secular, os livros continuam imbatíveis nestes tempos eletrônicos em que vivemos. Como diria Millor Fernandes, "não enguiçam". A tecnologia do papel, ainda predominante, já é wireless. Mas, diante do livro, como diante de muitos outros artefatos humanos, nem sempre imaginamos ou mensuramos o quanto há de trabalho na qualidade sempre almejada, mas nem sempre conseguida.

 

Quem quer que tenha se visto engajado num projeto editorial de um livro conhece a trama de aspectos, nuanças e decisões que envolvem a "fabricação" desse fascinante objeto. É freqüente haver surpresas diante dos detalhes de que se tece a sua qualidade. A começar dos autores, que, aliás, como nos lembra Roger Chartier, não escrevem rigorosamente livros, mas textos. Essa distinção do historiador francês já sinaliza para o "esquecimento" e a "invisibilidade" do trabalho de vários profissionais envolvidos no processo: gráficos, programadores visuais, editoradores, revisores, bibliotecários, coordenadores e consultores editoriais, fotógrafos, capistas e tantos outros, cujo número sempre aumenta na razão direta da complexidade do projeto editorial.

 

Com o advento das novas tecnologias e as facilidades dos tempos atuais, a tendência do livro é transbordar das casas exclusivamente editoras. Órgãos públicos, organizações não-governamentais, entidades privadas e do terceiro setor, todos publicam livros e realizam edições. De um momento para outro, muitas pessoas das áreas profissionais as mais diversas se vêem às voltas com uma missão editorial, na qual, muitas vezes, amargam o desconhecimento técnico da construção de um livro, aprendendo nos embates do cotidiano o fascinante, mas árduo, trabalho de colocar uma obra nas prateleiras das livrarias e das bibliotecas. São — esses profissionais — coordenadores de projetos, pesquisadores, professores, jornalistas, consultores e técnicos dos mais diversos campos. Eles terminam aprendendo na prática — e, muitas vezes, no sufoco do dia-a-dia — as lições de trabalho em equipe que um bom livro esconde.

 

À parte os sucessos conseguidos, muitas vezes aos trancos e barrancos, é de se imaginar que o bom senso exija de todos e de cada um pelo menos um pouco de método. Um bom livro pede tempo, dedicação e cuidados. Se a publicação não estiver a cargo de uma competente editora, que seja articulada, então, uma equipe, por meio da qual possam nascer correspondências e harmonias entre as diversas fases, partes e elementos da composição de um livro. É fundamental que esteja presente e atuante um "regente" editorial, sem a presença do qual corre-se o risco de a peça "desafinar", não obstante a competência dos seus diversos elementos isolados. Esses elementos e partes sempre solicitam decisões concatenadas para formarem a estrutura, em parte "invisível", do rosto gutemberguiano que teremos diante de nosso próprio rosto.


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