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Sites e Texto: Traços de União

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Publicado em 14.04.2002 - Edição 186

Não faz muito tempo, há uns dois anos, o francês Pierre Lévy, antropólogo da cibercultura, numa entrevista à Folha de S. Paulo, destacava que, ao contrário do que se propalava ou se pretendia imaginar, a Web estava cheia de textos e não apenas de um arsenal gráfico-visual. A sedução de uma existência sem escrita parecia fundamentar o receio de uns e o desejo de outros de um mundo simplificado, instantâneo, sem a mediação de textos, como se num passe de mágica a milenar tecnologia da escrita fosse riscada do horizonte digital, jogada a um canto de um parque jurássico.

 

O que Lévy então apontava era o óbvio que não se queria ver: a Web está cheia de textos, tropeça-se em textos a todo momento. O fascínio (de resto em tudo justificado e justificável) pelas imagens visuais ofusca, num primeiro momento, o poder das palavras. Sem querer entrar na mais do que ociosa discussão sobre quem leva a melhor na disputa, relembro apenas que a escrita está no próprio fundamento da sociedade como a conhecemos e que a palavra, longe de ser apenas um instrumento, é a base da própria humanidade...

 

Esse rápido prólogo relembrando a resposta de Lévy às inquietações de então vem a propósito do que pesquisa de ponta, na própria França, acaba de comprovar. Segundo o Le Monde, de 23 de março último, "a companhia francesa Novadis se propôs a decifrar o funcionamento cognitivo (....) para conceber programas ou sites adaptados à lógica do usuário". Para tanto, o grupo francês associou-se ao laboratório Clips (Communication Langagière et Interaction Personne–Système) do Instituto de Informática e Matemática Aplicadas de Grenoble.

 

A pesquisa, além de recursos clássicos como testes psicológicos e entrevistas, utilizou instrumentos de alta tecnologia para observar os movimentos do mouse, do teclado e da seqüência dos movimentos oculares dos internautas. Resumo da ópera: Clips e Novadis chegaram à constatação de que enquanto os olhares dos iniciantes, navegando em sites de serviços e comércio, se detinham mais nas imagens e nas zonas de fotos, os olhares dos usuários mais experientes, por sua vez, fixavam sua atenção mais nos títulos e nos textos. O diretor do Clips, Jean Caelen, observa que, diante de resultados como os apontados, é preciso trabalhar mais os textos que as imagens nos sites comerciais, principalmente dotando-os de títulos mais claros e explícitos.

 

Utilizando alta tecnologia para acompanhar a viagem do olhar pelos sites, os pesquisadores têm, assim, dados muito mais precisos sobre os pontos fortes e fracos das páginas da Web, os quais, uma vez identificados, auxiliam no desenvolvimento e na melhoria da comunicação on line.

 

Bem, o alerta foi dado. O que seria uma tendência ou viés de nossa parte, ou para usar a língua dos pesquisadores — um parti pris —, está autorizado pela ciência e pela pesquisa mais recentes. Tanto na Web quanto fora dela, textos e palavras (nomes, títulos, etc.) são essenciais. Tanto na Web quanto fora dela, clareza e inteligência ainda fazem sucesso. Voilà tout!


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