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O que é um site – aproximações

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Publicado em 03.03.2002 - Edição 180

"Tememos que a Internet seja irrepresentável, que a Web seja oceânica e sem forma." (Pierre Lévy - A conexão planetária)

 

Quanto mais leio sobre o assunto e lido com a multiplicidade da Web, mais me salta à vista a figura fascinante deste novo e estranho objeto de desejo — o site. Como o que é novo costuma nos enfeitiçar, é preciso um esforço de compreensão para que aproveitemos, sem maiores equívocos, o imenso potencial que a inserção na Grande Rede pode nos proporcionar.

 

Fragmentos da Web, os sites parecem espelhá-la como verdadeiros microcosmos e interfaces. Todo site é, essencialmente, uma interface, ou seja, lugar de troca, de passagem, de tradução. Mas interface móvel, plástica. Sem mobilidade, qualquer site é um arremedo da página impressa de Gutemberg. O arsenal de recursos gráfico-visuais e a conseqüente exploração desses recursos (sobretudo os que trazem animação) dão aos sites a aparência de algo vivo. A aparência do vivo na Internet (nova mímese a desafiar os estudiosos), mais que uma qualidade, parece ser uma condição de sua existência. A imitação do vivo, como sabemos, não se limita aos aspectos visuais — dominantes, mas não exclusivos. O vivo também se manifesta através dos sons, da música, da voz. Ao contrário da página eternamente muda de Gutemberg, as páginas dos sites podem ser fecundadas pelo som e pela própria voz humana.

 

Essa potencialidade dos recursos sonoros e gráficos nos sinaliza que um site é algo não apenas vivo, mas algo a nos exigir criatividade, participação, interatividade. Todo site depende de mim. De mim que o exploro, que o navego, que me dou ou não ao direito de esgotá-lo. Daí o caráter multifocal de um bom site. Com isso, temos agora uma nova forma de leitura: não mais unidirecional, não mais linear, não mais estritamente verbal. Por isso, no que toca à comunicação escrita, um bom site nunca admitirá a simples transposição digital de um texto previamente escrito para outro ambiente. Começa, assim, a tomar forma um novo uso da linguagem. Aos poucos, a tecnologia da Web imprime a sua marca ao uso da palavra escrita. Recorrendo ao hipertexto, a palavra também parece tocada de mais vida. Luz, cor, movimento, links dão novas asas aos sentidos. A interface texto/imagem (secularmente conhecida) assume agora uma dimensão até há pouco inimaginável. Um bom site (e isso é um evidente corolário) há de harmonizar a escrita e a imagem e estas com o que vem se chamando web design — a arquitetura do ambiente digital como um todo. Pessoalmente, aprecio o uso do termo arquitetura, pois nos evoca um complexo de elementos estruturantes subordinados à coerência de um projeto estético. Mas é possível que termos assim venham a ser substituídos no futuro, pois basta lembrarmos que o nosso hoje banal automóvel também foi chamado de "carruagem sem cavalo"!

 

A arquitetura enquanto metáfora nos lembra ainda a confluência do simbólico e do material, da lógica e da arte. O site seria talvez uma espécie de arquitetura viva. Creio não ser demais a ênfase na vitalidade. Como na arte, não se trata apenas de uma imitação da vida, mas de uma nova vida que parece surgir. Por isso, não devemos subestimar a complexidade de um bom site. Por isso, sua construção deve ser preferencialmente coletiva, trabalhada em equipe. Afinal de contas, não parece sensato que algo tão multifacetado e polissêmico seja deixado ao sabor de simplismos individualistas ou de compreensões equivocadas.

 

Por outro lado, não basta pensarmos o que queremos do outros com o nosso site, mas sim pensarmos, sobretudo, o que os outros podem querer dele. E sempre — é de se imaginar — há muitas coisas a se desejar: informação, visibilidade, serviços, diversão, arte, etc. Assim, é preciso ter em mente, como nos recorda o "antropólogo do ciberespaço", Pierre Lévy, que "Cada site é um agente de seleção, de orientação, de hierarquização parcial". No oceano da Web, como nos mares da vida, precisamos de rumo e de escolhas. E que, diante das eventualidades, cada internauta possa se fazer — como disse Nietzsche do próprio homem — um "redentor do acaso"


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