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A Revisão entre o "Artesanato" e o Digital

É preciso atenção redobrada, pois a velocidade, tão proveitosa em termos de escala, é uma inimiga mortal da revisão.
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Publicado em 20.04.2008 - Edição 498

          Como ocorre em outras áreas da atividade humana, a revisão de textos também foi impactada pela tecnologia digital. Que o digam não só o corretor ortográfico dos nossos micros, mas também todos os outros recursos e programas que envolvem a edição/formatação de um texto. Nesse sentido, os erros de um passado ainda recente são cada vez mais raros. Tome-se, com relação a esse aspecto, qualquer livro ou jornal publicado antes das novas tecnologias de impressão. Hoje quase já não se vêem letras trocadas e outras falhas tão freqüentes nos livros de outrora, sobretudo os brasileiros, que nunca primaram, salvo exceções, pelos cuidados editoriais.
          A verdade é que, com seus benefícios, as novas tecnologias nos deixaram bem mais exigentes, menos tolerantes, e não sem razão. Uma das contrapartidas desses benefícios é uma redobrada atenção, pois a velocidade, tão proveitosa em termos de escala, é uma inimiga mortal da revisão. Por outro lado, os programas que trabalham com imagem deixam de ver o texto enquanto texto. Como se sabe, a maioria desses programas não tem corretores ortográficos.
          Dessa forma, entramos no reino do "artesanato". Mas não entramos só pelas razões acima, senão, ou sobretudo, pela característica de a própria linguagem estar permeada de subjetividade e, portanto, de arbitrariedades, de formas ambíguas, de criações intelectuais que refogem ao domínio puramente quantitativo e racionalizante dos aspectos digitais. A linguagem é um terreno minado. Embora pareça exata para muitas coisas e ocupe a centralidade da civilização, a linguagem escrita também é um terreno pantanoso, por ser descontextualizada. O erro e a infidelidade, como seres de sombra, espreitam a cada momento e desafiam a clareza e a exatidão pretendidas. Enfim, volta-se para o reino do "artesanato" (aliás, de onde rigorosamente nunca se saiu), no qual certos procedimentos devem ser únicos, exclusivos, atentos a cada caso. Acrescente-se ainda que é por esse lado "artesanal" e demasiado humano que os lapsos eventualmente surgem.
          Foi por essas e provavelmente por muitas outras razões que Luiz Antônio Marcuschi, um dos mais renomados lingüistas brasileiros, escreveu que "Textos não são como uma bonbonnière, de onde só saem bombons". Noutras palavras, a escrita se apresenta, por sua própria natureza, com incertezas e estranhamentos, sempre surpreendendo aqueles que acreditam estar livres de erros e de uma má compreensão. É preciso, por isso mesmo, estarmos armados de uma revisão vigilante se quisermos chegar a um patamar mínimo de clareza, se quisermos ser bem "traduzidos" em nossos propósitos.
          O reino do "artesanato" pressupõe vigilância e correção, paciência e dúvida. Pressupõe ainda atitudes e operações únicas em face do texto e do plural que este potencialmente oferece. A universalidade gutenberguiana não dispensa aqui, malgrado a imprensa ter sido a primeira indústria e o modelo de todas as outras, o caráter subjetivo e pessoal da atividade humana. Assim, "artesanato" e tecnologias digitais convivem e se enriquecem mutuamente, desde, claro, que se deseje o máximo de qualidade para qualquer publicação.


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