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Explicitar para Comunicar

A redundância, sobretudo na comunicação oral, é um recurso extremamente valioso.
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Publicado em 31.12.2006 - Edição 430
Grande parte dos problemas corporativos tem sua origem numa comunicação que, supostamente realizada, terminou falhando. Embora muita tinta já tenha sido gasta com esse tema, a questão é simples. Não obstante sua simplicidade, é preciso estar atento a algo que comumente escapa a gestores e profissionais. Esse "algo" que se subtrai a esquemas e receitas prontas dos comunicadores de plantão pode ser resumido, pelo que observo, da seguinte forma: todos nós, sem exceção, temos uma grande dificuldade de nos colocar no lugar dos outros, esquecidos de que só há efetiva comunicação se o outro souber o que de fato queremos. É aí que entra uma palavrinha-chave: explicitação, com tudo o que ela implica de desdobramento e de contextualização.

McLuhan gostava de pensar a palavra como uma "tecnologia de explicitação". Isso, no entanto, deve ser compreendido mais como projeto ou desejo do que como realidade cotidiana, porque a palavra pode ser naturalmente usada como o oposto de qualquer explicitação! e até mesmo, como queria Talleyrand, ministro de Napoleão, para esconder os próprios pensamentos. Então, devemos ter em mente que usar a palavra para explicitar deve ser algo planejado, programático e desejável, desde, bem entendido, que se queira uma real comunicação. Nesse sentido, o povo nordestino tem uma saborosa expressão que casa com o que queremos postular, a saber: "cocada de coco de coqueiro de praia". Assim, a redundância, sobretudo na comunicação oral, é um recurso extremamente valioso. Mas para tanto tem de existir compatibilização do código e do canal utilizado com a finalidade de levar ao desempenho e à eficácia da comunicação. Como desejo não é realidade — enfatize-se —, o ego deve ser objetivamente minimizado, malgrado as dificuldades psicológicas e de relacionamento que são comuns e freqüentes.

Será a atenção ao contexto que vai nos dizer em que momento é oportuno usar a explicitação. Na prática, é um exercício de traduzir para o interlocutor, não de forma tautológica (sic), mas de forma que ele, interlocutor, tenha condições de perceber o que se quis transmitir. Na prática cotidiana, por motivos os mais diversos (de poder, de temperamento, etc.), observa-se que a palavra (e uma mensagem) não é clara por si mesma, uma vez que é dinâmica, relacional e se movimenta em vários campos semânticos.

Tanto a palavra impropriamente dita como a não dita são responsáveis por inúmeros equívocos. Como qualquer aprendizado, saber explicitar — mais do que explicar — é algo que requer treino continuado, além de perseverança dosada de paciência, sem falar no estratégico aspecto de não melindrar o interlocutor, como se este não tivesse capacidade de interpretar a mensagem corretamente. Assim é que a redundância deve vir acompanhada ou precedida de sinais verbais que a tornem permitida. Por outro lado, é preciso nos conscientizar de que nossos ouvidos muitas vezes teimam em se fechar mais do que nossas bocas, obstruindo o entendimento do que se escuta. É preciso, pois, sinais claros de que o interlocutor (ou destinatário) acompanha e admite os desdobramentos e esclarecimentos apontados.

Recapitulando, poderíamos dizer que o bom explicitador (e, portanto, o bom comunicador) trabalha (não necessariamente nesta ordem) com os seguintes passos e procedimentos: 1) planeja a explicitação; 2) minimiza o seu próprio ego; 3) vai por partes; 4) utiliza o código e o canal adequados; 5) é redundante sob consentimento; 6) fica atento aos sinais de concordância ou discordância; 7) sabe que explicar, muitas vezes e quase sempre, não é suficiente. Com tais cuidados, o êxito da comunicação, embora não garantido, ficará bastante próximo do desejável.

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